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Pares binários e a distinção

“Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é reconhecida pelo símbolo de outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco, o fim do inverno. O resto é mudo e intercambiável – árvores e pedras são apenas aquilo que são.”1

A cidade é carregada de signos. Eles impreterivelmente nos contam algo, uma data, uma história. Os signos demonstram um conceito, um significado e nos projetam diversas imagens relacionadas com nossa memória. Portanto o signo possui um significado  (conceito) e um significante (imagem). Para o significado da palavra mesa atribuo a imagem de um plano estático o qual utilizo tanto para apoiar utensílios quanto para realizar tarefas cotidianas, podendo esse ser de diversos formatos, tamanhos e materiais (significante).

Estes signos podem operar segundo Jacques Derrida de maneira binária, dentro/fora, abstração/figuração, entre tantos outros exemplos. Essa relação de pares opostos está presente em uma leitura pós-estruturalista do contexto. Esses pares binários estão dentro de um sistema hierárquico que privilegia um elemento do binário escondendo seu oposto. Privilegiando somente um lado do contexto. 2

A partir do momento em que temos o entendimento dessa relação binária não nos interessamos simplesmente em exaltar seu inverso ou muito menos seu contraste ou ainda tentar recuperar elementos perdidos. Nos interessamos pelas possibilidades de uma nova busca de conhecimentos dispares para obtenção de diferentes resultados e não a simples repetição de vertentes introspectivamente asseguradas pelas prévias supressões binárias. Uma possibilidade de relacionar distintas lógicas no contexto que está sendo abordado. É interessante ressaltar que a distinção em pares binários pode ajudar a entender o objeto de estudo de maneira mais didática, para buscar relações esquecidas, contudo os elemententos estudados devem estar sempre relacionados ao contexto e não encarados como abstração, pois o objeto atende um local e um usuário.

O entendimento desses binários possibilita um questionamento sobre as repetições que serão empregadas. Entendemos aqui repetição como fundamentação da função e não como uma simples repetição de soluções previamente abordadas. 3

Dentro dessa tríade pares binários, repetição e contexto (tempo, local e cultura), o que sobressai é a distinção com que cada elemento está sendo analisado, pois ele facilmente poderia ser entendido de outra maneira.

“ Para dizer a verdade, são todas formas que se dissipam quando se refletem neste fundo que emerge. Ele próprio deixou de ser o puro indeterminado que permanece no fundo, mas também as formas deixaram de ser determinações coexistentes ou complementares. O fundo que emerge não está mais no fundo, mas adquire uma existência autónoma; a forma que se reflete neste fundo não é mais uma forma, mas uma linha abstrata que atua diretamente sobre a alma. Quando o fundo emerge `a superfície, o rosto humano se decompõe neste espelho em que tanto o indeterminado quanto as determinações vêm confundir-se numa só determinação que  “estabelece” a diferença.”4

O que nos vem interessando é o entendimento das diferenças mais que a simples recusa de algo predeterminado, as diferenças dos binários, do contexto e das relações programáticas que estão ocorrendo.

1CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. 2. Ed. São Paulo: Companhia da Letras, 2002.

2DERRIDA, Jacques. Gramatologia. 2. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.

3BENJAMIN, Andrew. Architectural Philosophy. London: Athlone Press, 2000.

4DELEUZE, Giles. Diferença e repetição. São Paulo: Edições Graal, 2009.

Como entendemos nosso PROCESSO

Desde o começo de nossa prática buscamos estabelecer relações multidisciplinares, contudo inicialmente não sabíamos ao certo como elas ocorreriam, tínhamos somente um sentimento de como ela poderia se desdobrar. Com o passar do tempo se fez necessário o entendimento de como os elementos estavam se dispondo em nossos raciocínios e até que ponto estávamos tendo consciência do que nos influenciava. Com os estudos multidisciplinares subseqüentes nos deparamos com o chef Catalão Ferran Adriá1, o qual realizou um estudo de como as relações aconteciam entre ele e seu comensal. Após analisarmos esse estudo gastronômico tentamos aplicá-lo em nossa prática. Porém em um primeiro momento esse esboço esquemático que traçamos se manifestou muito rígido, aquém do que realmente estava acontecendo conosco. Nesse momento estávamos discutindo constantemente a teoria dos Rizomas* proposta por Gilles Deleuze e Félix Guattari2, a qual nos parecia mais completa e horizontal, mais verdadeira em relação a nossas percepções e nosso entendimento.

Assim, através desses e de outros questionamentos chegamos a um diagrama esquemático de como entendemos nossa prática hoje. Esse diagrama está em constante modificação devido a facilidade midiática de como a totalidade sofre constante mutação.O fato de estudarmos outras disciplinas implica para nós um melhor entendimento da arquitetura e não a exoneração do estudo de sua teoria.

1 ADRIÁ, Ferran; SOLER, Juli; ADRIÁ, Albert. ElBullli 2003-2004. Barcelona: Impressiones Generales S.A.,2005.

2 DELEUZE, Gilles e Guattari, Félix. Mil platôs, vol. I. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.